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1932: São Paulo contra a ditadura

Há 92 anos, paulistas pegavam em armas com o intuito de derrubar uma ditadura que se instalava rapidamente, escrever uma nova constituição e libertar São Paulo, que vivia sob intervenção federal.

Paulistas se reunindo antes de partirem para o campo de batalha na Revolução de 1932


Lauro Arttur

Revolução Constitucionalista de 1932. Assim ficou conhecida a revolta armada do Estado de São Paulo contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas, que havia tomado o poder em 1930 após um golpe de Estado. Vargas, através do chamado “Governo Provisório”, fechou as câmaras municipais, as assembleias legislativas dos Estados, dissolveu o congresso nacional e realizou uma intervenção no poder judiciário, onde seis ministros do Supremo Tribunal Federal foram cassados. Ele então nomeou interventores para governar os Estados conforme seus interesses, onde os interventores passaram a escolher os prefeitos dos municípios. 

A revolta foi desencadeada pelas mortes de quatro jovens paulistas por tropas leais à ditadura varguista durante uma manifestação em São Paulo no dia em 23 de maio. Apoiado por grupos econômicos e políticos locais, o levante resultou no maior conflito militar do país no século XX, e começou em 9 de julho de 1932, terminando com a rendição do Exército Constitucionalista de São Paulo em 2 de outubro.


O início

Havia manifestações corriqueiras nas praças da capital do Estado, sempre com críticas ao autoritarismo do governo federal. Mas o estopim de tudo se deu após a manifestação do dia 23 de maio de 1932, ocorrida na esquina da rua Barão de Itapetininga com a praça da República, que resultou na morte de quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (MMDC). No dia seguinte, houve um grande comício na praça do Patriarca contra o governo federal. Em 9 de julho, o Palácio dos Campos Elíseos se tornou o centro do conflito quando Pedro de Toledo, então interventor de São Paulo, aderiu à causa da Revolução e foi aclamado governador paulista.

Fotos publicadas pelo jornal "A Gazeta" no dia 24 de maio de 1932, destacando o início da mobilização paulista  após a morte dos MMDC.

Cartão em homenagem ao MMDC

Para esse conflito, Vargas conseguiu o apoio militar de quase todos os Estados, exceto do Estado de Maracaju, que hoje é o Mato Grosso do Sul. O Estado de Maracaju foi um Estado criado à revelia do governo federal, e existiu apenas durante as agitações da Revolução, tendo seu fim em outubro de 1932. Os confrontos entre os constitucionalistas e as tropas enviadas por Getúlio resultaram em 934 mortes, incluindo 634 de constitucionalistas. Apesar da derrota no campo de batalha, São Paulo conseguiu que todas as suas reivindicações fossem concretizadas. Em maio de 1933, foram realizadas eleições para a Assembleia Constituinte. Em novembro, foi elaborada a Constituição brasileira, promulgada em 1934.

Para o historiador Paulo Rezzutti, celebrar o 9 de julho é de extrema importância, pois São Paulo lutou por uma Constituição e, apesar de ter perdido a revolução, os efeitos da luta culminaram na convocação de uma nova constituinte e no retorno do poder legislativo.

É notório que o episódio não recebeu o devido destaque no jornalismo durante os anos que se sucederam, em parte porque o governo de Vargas durou mais 13 anos, durante os quais a Revolução não podia ser discutida livremente. Dessa forma, ao longo de tempos, a narrativa dos vencedores prevaleceu, com teses que retratavam o movimento como separatista e antinacionalista, alegando que São Paulo desprezava o restante do país.

No entanto, a revolta obteve apoio em outras regiões como no Sul, em Mato Grosso, em Minas Gerais, na Bahia e no Amazonas. Também se dizia que a Revolução fora motivada pela elite cafeeira e industrial de São Paulo que queria recuperar protagonismo perdido após 1930, porém, um fato importante, que rechaça essa ideia, foi o grande apoio popular que Getúlio obteve entre os paulistas em 1930, quando ele prometeu a pronta convocação de uma assembleia constituinte, para que se desse início, enfim, a um governo democrático no Brasil. Getúlio não cumpriu com sua palavra.

Esses fatores controversos da Revolução afastaram o interesse de alguns acadêmicos paulistas em estudar os detalhes históricos da Revolução, mas a partir da década de 1980, essas versões começaram a ser revisadas, e, apesar desses diferentes pontos de vista, é fato que São Paulo lutou praticamente sozinho contra um governo que se autointitulava ditatorial, e que os demais Estados se recusaram a lutar ao lado dos paulistas por haver interesses na manutenção do sistema intervencionista.

Na chamada "Revolução de 1932" São Paulo lutou por uma causa justa e, mesmo que não tenha vencido no campo de batalha, deu um grande exemplo de como conseguir grandes feitos em um curto período, como a produção manual de armas, a angariação de recursos, e até mesmo a criação de uma moeda própria, demonstrando a força de mobilização dos paulistas.

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